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🇧🇷 Brasilmiércoles, 24 de junio de 2026

A imprensa estrangeira está vendo o Brasil hoje através de um enquadramento que merecia ser chamado pelo que é: o da ausência. Não uma ausência literal, mas uma ausência de peso narrativo. A Escócia, em véspera de Copa do Mundo, recebe mais atenção internacional como adversária do Brasil do que o Brasil recebe como protagonista de sua própria história.

O texto da RFI, enviado de Miami por Elcio Ramalho, é instrutivo naquilo que revela sem pretender revelar. A cobertura não é sobre o Brasil em si, mas sobre como a Escócia se prepara para enfrentar o Brasil. O país é enquadrado como um cenário, um obstáculo, uma instituição icônica do futebol mundial contra a qual se mede a coragem escocesa. Steve Clarke fala da sua admiração pelo Brasil desde a infância, Vinícius Jr. é descrito como uma "futura superestrela", o retrospecto favorável à seleção brasileira é citado. Tudo isso, porém, serve a um propósito narrativo que não é brasileiro: contar a história de esperança e determinação de uma pequena nação que quer quebrar seu jejum de eliminações na fase de grupos.

Esse deslocamento do foco é revelador. Quando a imprensa estrangeira cobre o Brasil em contexto de futebol, não está necessariamente interessada em analisar o desempenho, a tática ou as perspectivas da seleção brasileira. Está interessada em usar o Brasil como medida de grandeza para outras narrativas. A Escócia sonha em vencer o Brasil ou em surpreender. O Brasil, nesse enquadramento, é o padrão ouro contra o qual se mede sucesso ou fracasso alheio.

Isso contrasta de forma interessante com o padrão dos últimos dias de cobertura internacional sobre o Brasil, quando o país ocupava espaço através de crises, investigações e condenações. Havia, naqueles momentos, um Brasil problemático, um Brasil que demandava explicação e análise crítica. Hoje, há um Brasil que é simplesmente presumido: pentacampeão, ofensivo por natureza, uma ameaça previsível. A cobertura não questiona, não investiga, não problematiza. Apenas reconhece e segue adiante.

O que a imprensa estrangeira não está vendo, ou escolhe não ver, é o Brasil em disputa consigo mesmo. O texto menciona de passagem que o Brasil terminou em quinto lugar nas eliminatórias, o que Steve Clarke descreve como "um pouco decepcionante". Essa informação é citada como contexto, não como problema. Não há análise de por que a seleção que se presume pentacampeã e ofensiva terminou em quinto lugar nas eliminatórias sul-americanas. Não há interrogação sobre o que isso significa para as expectativas da Copa. Não há enquadramento que coloque o Brasil em posição de questionamento sobre si mesmo.

Em vez disso, há uma narrativa de continuidade presumida. O Brasil atacará porque é assim que as pessoas esperam do Brasil. O Brasil será uma ameaça porque sempre foi. Vinícius Jr. será uma superestrela porque tem talento. Nenhuma dessas afirmações é falsa, mas juntas elas criam um enquadramento que imobiliza o Brasil em um papel predeterminado, tornando-o previsível e, portanto, menos interessante como objeto de análise jornalística.

A Escócia, por sua vez, é enquadrada como agente. Seus jogadores "deverão estar totalmente concentrados". O capitão Robertson fala de dar 100%, de tentar conseguir resultado, de sonhar. Há agência, há vontade, há possibilidade de surpresa. O Brasil, nesse enquadramento, é a força contra a qual essa agência se mede.

Isso não é, estritamente falando, uma distorção. É um enquadramento, e todo enquadramento escolhe o que amplificar e o que deixar na sombra. A escolha aqui é clara: amplificar a história de um time pequeno enfrentando um gigante, deixar na sombra as questões sobre por que o gigante chegou em quinto lugar e o que isso significa para suas reais perspectivas na competição.

É um enquadramento que torna o Brasil menos visível exatamente no momento em que o Brasil deveria estar em foco máximo. E isso, para um painel que observa como a imprensa estrangeira enquadra o Brasil, é precisamente o tipo de invisibilidade que merecia ser notada.

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