A imprensa estrangeira descobriu hoje que o Brasil não está na Copa do Mundo. Ou melhor, descobriu que pode falar sobre futebol sem falar sobre o Brasil, e essa é uma descoberta que merecia ser notada.
A manchete do dia, vinda da RFI através do feed Brasil, trata de Cabo Verde. Uma pequena nação insular africana que, em sua primeira participação num Mundial, consegue uma classificação histórica para as oitavas de final. É uma história legítima de David contra Golias, de improvável que se torna possível, de competência defensiva que compensa a falta de recursos ofensivos. O capitão Ryan Mendes diz, com razão, que agora o mundo inteiro sabe onde fica Cabo Verde.
Mas há algo na forma como essa história é contada que revela uma mudança sutil no enquadramento internacional sobre o futebol. Cabo Verde avança para enfrentar a Argentina. A Arábia Saudita fica de fora. O Uruguai é eliminado. E em nenhum momento o Brasil aparece como referência, como medida, como contexto. Não porque o Brasil não esteja em discussão, mas porque, aparentemente, o Brasil deixou de ser a lente através da qual a imprensa internacional vê o futebol sul-americano.
Nos editoriais anteriores, notou-se como o Brasil era frequentemente reduzido a cenário ou adversário. Hoje, o Brasil não é nem isso. É simplesmente ausente. A narrativa do futebol mundial prossegue sem necessidade de ancorá-la no Brasil como referência obrigatória. Cabo Verde conquista sua vaga e a história é completa em si mesma. A Argentina espera na próxima fase. O Uruguai é eliminado e isso é notável por ser o Uruguai, não por ser um rival histórico do Brasil.
Isso poderia sugerir um nivelamento do campo internacional, uma democratização da narrativa futebolística onde nações menores ganham espaço próprio sem precisar ser definidas em relação aos gigantes tradicionais. Seria uma leitura otimista. A leitura mais precisa, porém, é que o Brasil simplesmente não está lá. E quando um país pentacampeão mundial não está numa Copa do Mundo, a imprensa internacional segue em frente com a mesma naturalidade com que seguiria se qualquer outra seleção tivesse ficado de fora. O Brasil deixou de ser indispensável à narrativa porque deixou de estar no palco onde essa narrativa se desenrola.
A ironia, claro, é que essa ausência física do Brasil do torneio torna sua ausência nas manchetes ainda mais eloquente. Não há nem a compensação de uma cobertura crítica, de uma análise sobre o que deu errado, de um debate sobre o futuro. Há apenas silêncio, preenchido pela história legítima de Cabo Verde, que merecia ser contada, mas que também marca, por contraste, o vazio deixado por um país que costumava ocupar o centro das atenções sempre que bola rolava.