A imprensa internacional que acompanha Brasil hoje oferece um enquadramento particularmente revelador sobre como o país está sendo posicionado no tabuleiro geopolítico global. A Infobaa América, neste caso, não está simplesmente noticiando um acordo comercial entre Brasil e Coreia do Sul. Está narrando uma reconfiguração maior em que Brasil emerge como ator estratégico numa disputa por realinhamento comercial que transcende o Mercosul.
O fio narrativo é claro: num mundo onde Donald Trump impõe incerteza tarifária sobre o comércio internacional, Brasil se move com agilidade diplomática para diversificar parcerias e reduzir dependência do mercado americano. A visita de Estado do presidente surcoreano Lee Jae-myung a Brasília, a criação de um grupo de trabalho bilateral com o vice-presidente Geraldo Alckmin à frente, os memorandos de entendimento em áreas como minerais críticos e semicondutores, a missão sanitária para habilitar exportações de carne. Tudo isso é apresentado como movimento calculado de um Brasil que compreende a urgência geopolítica do momento.
Há, porém, algo notável no que a cobertura enfatiza e no que deixa na sombra. A narrativa estrangeira privilegia Brasil como intermediário comercial de grande escala, como portal de acesso a um mercado consumidor e a recursos estratégicos. Coreia do Sul busca minerais críticos para sua indústria eletrônica. Brasil oferece isso. Coreia do Sul quer diversificar cadeias de suprimento. O Mercosul oferece acesso a um bloco. A carne brasileira interessa à Ásia. Lula anuncia uma missão sanitária como se fosse um prêmio conquistado.
O que fica ausente é qualquer questionamento sobre o custo dessa reconfiguração para as próprias estruturas internas do Brasil. A Infobaa menciona que as negociações estão travadas desde 2018 por "diferenças em matéria agrícola e industrial", mas não detalha quem dentro do Brasil se opõe ao acordo, por quê, e que concessões serão necessárias. O enquadramento estrangeiro trata Brasil como unidade monolítica que negocia, quando na verdade há setores industriais brasileiros que podem se sentir ameaçados pela entrada de produtos surcoreanos.
Há também uma dimensão de urgência imposta de fora para dentro. Lee Jae-myung afirma que "em um momento de tantas incertidumbres no âmbito comercial, nosso acordo entre Brasil e Corea não pode esperar mais". Lula responde com pragmatismo institucional. A imprensa internacional lê isso como sabedoria geopolítica. Mas há um risco de interpretação: a urgência pode estar sendo ditada menos por interesse genuíno do Brasil e mais pela necessidade de Coreia do Sul de encontrar novos mercados num contexto de tensão comercial global. Brasil aparece menos como protagonista e mais como oportunidade.
O contexto mais amplo que a Infobaa oferece é também revelador. O Mercosul já fechou acordo com a União Europeia em 2024 após duas décadas de negociação. Brasil negocia paralelamente com China um acordo comercial. Agora trabalha para destravar Coreia do Sul. A narrativa é de um bloco sulamericano que se move com velocidade para compensar a incerteza causada pela política tarifária de Washington. Isso é verdadeiro, mas a cobertura internacional tende a ver Brasil como o motor dessa reconfiguração, quando na verdade o país está respondendo a pressões externas.
O detalhe que merecia mais atenção e que a imprensa estrangeira não oferece é este: o Brasil está apostando numa estratégia de diversificação comercial que pressupõe que a ordem comercial internacional continuará aberta o suficiente para que esses acordos funcionem. Se Trump levar adiante suas ameaças tarifárias de forma mais agressiva, se a fragmentação geopolítica se aprofundar, esses acordos podem se revelar menos valiosos que parecem hoje. A imprensa internacional, ao enquadrar esses movimentos como resposta sábia à incerteza, está implicitamente apostando que a incerteza será contida.
O que a cobertura da Infobaa não diz é que Brasil está numa corrida contra o tempo para assinar acordos antes que o mundo se fragmente ainda mais. Isso não é narrado como vulnerabilidade. É narrado como oportunismo estratégico. É uma questão de perspectiva, e a perspectiva estrangeira escolhe ver Brasil como ator que manobra bem num jogo que não controla totalmente.