A imprensa internacional, através da BBC Latin America, encontrou na vitória brasileira contra o Japão um tema que lhe é particularmente caro: o drama da redenção sob pressão extrema, e a figura de um técnico que consegue manter a compostura enquanto uma nação inteira enfrenta o que Tim Vickery, comentarista da emissora, chamou de "humilhação histórica".
O enquadramento é revelador não pelo que diz sobre o futebol, mas pelo que diz sobre como o Brasil é visto de fora. A BBC não está interessada em analisar o jogo em seus méritos táticos ou na qualidade do futebol exibido. O que interessa é a narrativa de crise e salvação, o momento em que tudo poderia ter desabado e não desabou. Meia hora antes do fim, Brasil estava a 45 minutos de uma derrota que seria descrita como "humilhação", não apenas porque perder para Japão seria inesperado, mas porque perderia para uma equipe asiática, algo que a tradição brasileira, segundo a reportagem, não tolera bem. A BBC cita Vickery explicando que Brasil é "tradicionalista esnobe" e que ser eliminado na primeira fase contra um time da Ásia seria uma afronta histórica de dimensões específicas. Há aqui um pressuposto interessante: a ideia de que existe uma hierarquia de dignidade nas derrotas brasileiras, e que perder para determinados adversários é mais envergonhador que para outros.
O segundo movimento do enquadramento é ainda mais significativo. A vitória não é atribuída ao Brasil ter jogado melhor, mas a Carlo Ancelotti ter feito "nada", ou melhor, a ter feito exatamente o que era necessário sem fazer barulho. A BBC celebra a "capacidade de Ancelotti de não fazer nada", descrevendo-o como "um oásis de calma no caos ao seu redor". A mudança tática concreta que salvou o Brasil, a decisão de aumentar drasticamente os cruzamentos na área (de 12 no primeiro tempo para 28 no segundo), é mencionada, mas é subsumida numa narrativa maior sobre a personalidade do técnico. O que a imprensa estrangeira quer contar é a história do homem experiente que mantém a cabeça fria enquanto tudo desaba. Ancelotti é descrito com admiração, mas é uma admiração que o coloca como alguém que domina o caos, não como alguém que entende profundamente o futebol brasileiro.
Há também um detalhe revelador na forma como a BBC trata a possibilidade de derrota. A reportagem sugere que seria uma surpresa porque Brasil é Brasil, porque tem tradição, porque tem jogadores de qualidade. Mas não questiona por que o Brasil começou tão mal contra um Japão bem organizado. Não há curiosidade sobre as razões da primeira metade desastrosa, apenas a constatação de que aconteceu e que foi perigoso. É como se o Brasil fosse visto como uma entidade que ocasionalmente dorme e precisa ser acordada, e não como um time que pode ter problemas estruturais ou de preparação.
O comentário de Chris Sutton, ex-jogador do Celtic, oferece talvez o enquadramento mais honesto: "É sobre encontrar um caminho. Com toda a experiência que Brasil tem, e o suficiente no tanque para derrotar uma equipe excelente do Japão". Aqui, o futebol é reconhecido como um jogo onde a experiência, a qualidade e a capacidade de ajuste são decisivos. Mas mesmo esse comentário coloca Brasil numa posição de superioridade que precisa ser "demonstrada" contra um adversário que é descrito como "excelente" apenas após quase eliminar o Brasil.
O que a imprensa internacional não faz é examinar a possibilidade de que o Brasil está numa transição, de que Ancelotti está ainda construindo uma equipe, de que as dificuldades contra o Japão refletem algo mais profundo sobre como o futebol evoluiu e como Brasil precisa evoluir para acompanhar. Em vez disso, oferece a narrativa reconfortante de que a crise foi resolvida pela calma de um homem experiente e pela qualidade inerente dos jogadores brasileiros. É uma forma de ver o Brasil que o mantém preso a uma imagem de si mesmo, em vez de permitir que ele seja visto como um projeto em construção, vulnerável e precisando se reinventar.