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🇧🇷 Brasiljueves, 2 de julio de 2026

A imprensa internacional descobriu hoje que o Brasil é um lugar onde as coisas podem melhorar, e essa descoberta chegou através de um fenômeno tão simples quanto improvável: baleias jubarte voltando para casa.

Há algo de notavelmente diferente no tom da Infobae América ao cobrir os avistamentos crescentes de baleias jorobadas no Rio de Janeiro. Não é a simples constatação de um fato natural. É a narrativa de uma recuperação mensurável, quantificável, que permite ao observador estrangeiro enxergar o Brasil não como um país preso em crises permanentes, mas como um espaço onde decisões tomadas décadas atrás produziram resultados concretos e positivos. A população de baleias jubarte passou de cerca de dois mil exemplares para trinta e cinco mil em quarenta anos. Essa é uma métrica que a imprensa internacional compreende e respeita: progresso.

O enquadramento escolhido pela agência é revelador. A moratória internacional de 1982 à caça comercial de baleias aparece como marco fundador de uma história de sucesso ambiental. Mas o que torna essa cobertura particularmente significativa é a forma como ela permite ao Brasil aparecer não como vítima de seus próprios problemas, mas como beneficiário de uma ordem internacional que funcionou. As baleias voltaram porque o mundo decidiu protegê-las. O Brasil, neste caso, é o território onde essa proteção se materializa de forma visível e espetacular.

Há também um segundo movimento no texto, mais sutil. A demanda crescente por excursões turísticas, as iniciativas como a do Rio Ocean Club, a presença de biólogos a bordo dos veleiros, a expedição científica planejada para junho e julho, tudo isso transforma a recuperação ambiental em oportunidade econômica. Louise Raulais, uma das líderes da iniciativa, oferece à imprensa estrangeira exatamente o tipo de narrativa que ela deseja ouvir: a de que ver baleias muda as pessoas, transforma sua forma de ver o mundo. É uma história sobre educação ambiental, sobre turismo responsável, sobre a possibilidade de lucrar enquanto se protege a natureza.

O que merece atenção crítica é o que essa cobertura omite ou suaviza. O texto menciona o Banco de Abrolhos como "um dos pontos de maior biodiversidade marinha no Atlântico Sul", mas não explora em detalhe as ameaças contemporâneas a esse ecossistema. Não há menção a pressões de exploração petrolífera, a mudanças climáticas, a poluição marinha ou a outros fatores que possam comprometer a continuidade dessa recuperação. A narrativa é de sucesso consolidado, não de fragilidade persistente. As baleias estão saudáveis e prosperando, diz Enrico Marcovaldi, cofundador do Projeto Ballena Jorobada. O futuro é aberto, esperançoso.

Há também uma questão de enquadramento geográfico que merece nota. A cobertura concentra-se no Rio de Janeiro e na costa do nordeste brasileiro, em particular no Banco de Abrolhos. Esses são lugares que a imprensa internacional consegue visualizar facilmente, que se encaixam em narrativas de turismo de natureza e de biodiversidade tropical. São pontos de interesse que fazem sentido no mapa mental do leitor estrangeiro. O Brasil, nesta perspectiva, é reduzido aos seus cenários mais fotogênicos e às suas histórias mais edificantes.

O que torna esse enquadramento particularmente interessante é que ele oferece ao Brasil algo raro nas coberturas internacionais recentes: agência. Não é o Brasil como vítima de suas próprias instituições frágeis, não é o Brasil como palco de dramas políticos ou conflitos familiares entre oligarcas. É o Brasil como parte de um sistema internacional de proteção ambiental que funciona, como um território onde a vida selvagem prospera, como um destino onde turistas educados podem aprender sobre a importância da conservação. É uma imagem positiva, mas também uma imagem controlada, selecionada, que diz mais sobre o que a imprensa estrangeira deseja ver no Brasil do que sobre a complexidade real de sua situação ambiental e econômica.

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